Eu No Tempo

Coisa do passado isso, siga em frente, vá!
Afinal, o que é o tempo, além de lembrança e sonho?
Hoje mesmo acordei bem cedo e que diferença faz? Já passou! E hoje mesmo nada deu errado e fiz essa porção de coisas – e quem disse que posso fazer algo a mais qualquer dia desses e que nada vai desmoronar amanhã?
Tema batido esse: “aproveite o presente”, mas “o presente não existe porque foi há um segundo”, etc. Reflexão “existencial” manjada, mas clichês existem por uma razão.
O tempo na física até estica e encolhe. Relatividade e Einstein, sei lá. E eu aqui desprezando e querendo que o tempo passe ou volte. Isso nem existe, mas o desejo…
…tô aqui desabafando com vocês.
Vocês são eu, na verdade. Quem mais vai ler?
As decisões de hoje afetam o futuro e pelo menos isso é verdade. Eu acredito em livre arbítrio – então é verdade. Mas alguém uma vez me disse que as coisas não são definitivas e sempre se pode voltar atrás. Não no sentido de viagem no tempo, “buracos de minhoca” ou física quântica – no sentido de recomeçar e consertar mesmo.
(Há teorias sobre viagens no tempo, mas não acredito até encontrar com o meu “eu” do futuro”).
O tempo é física, e a gente tentando transformar em algo pessoal.

Vamos tc?

Lembra quando você tinha conversas comuns, frente a frente, sem memes, sem emojis, sem falsas risadas, só através da fala mesmo, aquela coisa bem tradicional, em que você não podia ficar horas sem responder porque tá assistindo série?

Coisa do passado, né?

O que é uma conversa de vida real depois de um tempo? Um quebra-cabeça da memória! Como um bom quebra-cabeça, vai perdendo as peças; outras ficam velhas e gastas e assim já não encaixam mais. Isso quer dizer que muitos desses papos simplesmente desaparecerão da sua mente. Muitos outros sofrerão os efeitos avassaladores do tempo no porão das lembranças: tornar-se-ão confusos, borrados, carcomidos, faltando palavra, faltando contexto, gerando o famoso “o que você disse mesmo naquele dia…?”. Se gastos e velhos o suficiente, serão descartados de vez e ops! Uma lembrança a menos. Até que quase tudo vira “não lembro nem de você ter falado nesse assunto”.

Imagine a tristeza dessas pessoas que viviam na era das conversas pessoais! Imagine a tristeza por não se lembrar com exatidão de todas as coisas vergonhosas e estúpidas que já foram ditas durante a sua vida!

Mas…nossos problemas acabaram!! (chuva de confetes!)

Com suas conversas virtuais, você pode ler e reler aquele debate inútil que teve com aquele ex-amigo sobre as eleições presidenciais em 2014 e, detalhe por detalhe, xingamento por xingamento, reviver cada momento de raiva! Lembra aquela mensagem que você não deveria ter mandado, mas mandou, quando estava bêbada? Continua lá — e de lá não sairá — pra você e pro destinatário poderem relembrar quantas vezes quiserem, até o fim de suas vidas!

Não é uma maravilhaaaaaa?

Quer ser torturado em 2030 com as coisas que você disse em 2017? Esse é o momento, não perca tempo! Fale agora mesmo tudo o que você quiser no chat — é como falar pessoalmente, só que muito melhor, MUITO MELHOR, não é mesmo??

Perdi A Hora

Eu sempre tive essa mania de acordar querendo dormir e ir dormir querendo acordar. Coisa de quem dorme tarde, mas queria acordar cedo, de quem gosta de dormir, mas queria não gostar (muito). Coisa de quem gosta de

estar acordado quase tanto quanto de dormir, e por isso não se decide.

Então, a respeito disso, algo aconteceu, dia desses: esqueci-me de acordar, mas me levantei.

Desliguei o despertador, vi os ponteiros do relógio (7 horas, em ponto), e senti raiva e cansaço; fiz café, me vesti, reclamei do horário, inclusive; tropecei de sono no tapete, derrubei um pouco de café, xinguei a pessoa que inventou que o dia precisa começar assim tão cedo (quando é evidente que deveria começar só depois das 10); peguei as chaves, coloquei na bolsa, abri a porta, quase com disposição.

E então acordei. 10 da manhã. Perdi a hora.

Victor Hugo de Notre Dame

“Notre Dame de Paris” (ou “O Corcunda de Notre Dame”) é, antes de tudo, um primoroso trabalho de pesquisa.

O fato de Victor Hugo ter escrito o romance no século XIX, mas com descrições tão acuradas sobre a Paris de XV, é algo que impressiona pelo trabalho de pesquisa do autor – é como se estivéssemos de fato VENDO a Paris de então. Isto se aplica principalmente às descrições sobre arquitetura, mas também sobre costumes e personagens da época.

Em particular sobre a arquitetura, há grandes relatos, detalhados e de teor técnico, que chegam mesmo a “quebrar” a história, especialmente no Livro 3. Para aqueles cujo maior interesse é a ação, esses momentos podem ser bastante cansativos. No entanto, o maior “defeito” é a maior riqueza do livro.

Não à toa, ao pisar na Catedral de Notre Dame hoje o visitante sente-se tragado pela atmosfera do romance de Victor Hugo. E as homenagens estão lá (até mesmo em português!), como merecido.

 

 

O Caçador de Tesouros

Sempre achei que ela fosse falar comigo…mas ela nunca falou”.

Manoel me contou isso no portão de sua casa, depois de ir à feira. Ainda carregava as sacolas de frutas. Há três anos era ele quem fazia as compras e geralmente ia de bicicleta.

Ela se foi com 90 anos…eu estou com 90 anos, deve estar chegando a minha hora também”.

Com a bicicleta num canto e as sacolas pesadas nas mãos, aquela frase não pareceu verdade, mas pareceu desejo. No entanto, a força de seu corpo mostrava que a vida vencia e aquela distância provavelmente ainda duraria muito tempo.

“Achei que ela me mandaria um sinal, tentaria se comunicar comigo…até agora nada.”

As mãos permaneciam firmes, apesar dos olhos tremidos. O rosto estava na saudade e os pensamentos, em outros tempos.

Dizia-se na vizinhança que o Manoel, mesmo triste com a ausência da esposa, continuou tocando a vida. Fazia a própria comida, ia ao médico, visitava os vizinhos e até cuidava do neto. Conversava sobre tudo, sorria para todos.

Porém havia algo de estranho. Dizia-se também — na mesma vizinhança — que ele sempre andava de bicicleta por aí e voltava com as sacolas cheias. Só que, na maioria das vezes, não trazia frutas.

Manoel era um caçador de tesouros.

Mas ninguém parecia entender. Chamavam seus tesouros de lixo, de tralha, de sujeira e de bagunça. Depois chamaram-lhe de porco, de depravado e de louco. E então chamaram o médico, a polícia, a vigilância sanitária e já não sabiam mais a quem chamar.

(Mesmo sem serem chamados, chegaram os ratos, as baratas, e toda sorte de insetos).

Todos pareciam preocupados com o Manoel, menos ele próprio.

“Seu Manoel, o senhor me venderia dez dessas garrafas PET?”

Ele hesitou um pouco e disse por fim:

“É que…já prometi a outra pessoa…vendo 50 garrafas destas por mês, já firmei um compromisso, sabe?”

O portão bloqueava a minha visão parcialmente, porém não era capaz de esconder a infinitude de garrafas, que de tão atulhadas, só faltavam pular pelos muros.

“Mas tem bem mais de 50 garrafas, seu Manoel, tem certeza de que 10 farão falta pro senhor?”

Nunca se sabe o que vai ser útil, minha querida. Por exemplo, outro dia o vizinho jogou fora uma televisão, e agora ela está funcionando perfeitamente na minha sala”.

Havia trapos, peças, embalagens. Havia desordem de todo tipo. E havia um portão que deixava bem claro que não havia um convite.

“Sabe como é…casa de homem solteiro! As coisas ficam um pouco bagunçadas! Se ela estivesse aqui…eu deveria ter ido antes…deveria ter sido eu…

Não havia mais espaço na casa. Mas ela continuava vazia.

Jane Austen no Século XXI

Na época de Jane Austen, uma história de amor poderia perdurar por muitos meses em desencontros.

Agora imagine Jane Austen no século XXI tentando convencer o leitor de que o reencontro entre duas pessoas é algo complicadíssimo e leva muitas páginas para se concluir.

O leitor, com certeza, responderia: “Pra começar, Jane, hoje temos tecnologias que tornam o desencontro quase impossível”.

“O Mr. Darcy do século XXI tem um Iphone7, que ele carrega no bolso. Faz check in em cada restaurante e mansão que frequenta. Se de repente bateu uma vontade de mandar a ‘real’ pra Elizabeth, é simples, esquece esse negócio de carta! Basta enviar uma mensagem pelo Whatsapp (sem emoji porque Mr. Darcy é bastante contido):

– Oi, Elizabeth, beleza? É o seguinte, você é pobre, sua família é meio tosca, mas estou apaixonado por você.

Elizabeth não tem Iphone, porque a família dela tem menos condições que a de Darcy, portanto contenta-se com um ZenFone. Mas não tem problema, porque o ZenFone também permite que a Elizabeth faça check in nas casas das vizinhas e das tias normalmente e use o Whatsapp.

Elizabeth fica online e lê a mensagem. Os dois risquinhos azuis aparecem na tela do Mr. Darcy.

Ela começa a pensar numa resposta…pensa, consumindo os minutos…

Darcy começa a ficar nervoso: “Caramba, será que a Elizabeth tá me ignorando?”. Respira fundo, deixa o celular de lado e vai dar uma volta a cavalo. Elizabeth continua pensando, num turbilhão de emoções! Quando Mr. Darcy volta do passeio, 20 minutos depois, Elizabeth já fez um textão sobre ele no Facebook”.

É provável que assim eles se odiassem para sempre e a tal história de amor acabasse antes mesmo de começar.

Jane, é assim que vivemos os amores: impetuosos, porém frágeis, e dinâmicos como a nossa própria tecnologia.

É preciso o mistério, os desencontros e mal-entendidos, seguindo-se a um longo período de contemplação e distância, para que os amores verdadeiros floresçam?

Quem sabe o mundo atual não mereça esse tipo de romance.

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